Às vezes (o céu) fica cinza quando a chuva cai
Sempre em volta de você
Mas será que não é tempo de saber o que se quer
E como seria bom se alguém dissesse
Que não adianta contar estrelas por aí?
(Love song sem título - Aborto Elético)
Precisava de um sinal de fogo, porque ter aquela vida, passeando pelas labaredas do fogo estrelar não o levaria a lugar nenhum. Os castelos de areias estavam se desmoronando, por causa da maré alta que chegava para arrastar tudo. A maré chegava a oferecer ajuda: "Seria capaz de apagar todas as escritas na areia se você estivesse disposto a apagá-las de seu coração". Mas ele não estava. Era capaz de esquecer aquela fórmula de Física, o aniversário da amiga ou onde colocou o controle remoto, pois eram coisas da cabeça, porém sentimentos, sonhos e idealizações são coisas do coração. Sempre lhe disseram que tinha a mente fraca, e sempre compensou com um forte coração. Um forte coração que agora se encontrava despedaçado e espalhado por todas as avenidas do bairro. Já tentara catar seus pedaços, mas só foi capaz de catar estrelas para ter em que acreditar. Os pedaços das estrelas brilhavam, chamando-o; já seu coração perdeu o brilho ao entrar em contato com o asfalto quente, afinal não tinha mais vontade de se esconder em seu peito - sabia que congelaria ali.
O cinza escuro do céu não o aterrorizava mais. Pra falar a verdade, pouco se importava. Quase nunca notava a passagem do tempo. Criou uma bolha de proteção para viver e nela não existia relógio e ampulhetas.
Precisava tomar decisões, mas não queria. Não queria sequer pensar e exigir de seu cérebro, por vezes tão cruel, capaz de confundi-lo e confrontá-lo: "É isso que queres: seguir a podre emoção? Sou a razão, dona de verdades inimagináveis"
Tinha que se decidir em algum momento, mas enquanto era tomado pela indecisão, apenas colhia as estrelas que brilhavam aos seus pés.